Publicado por: atiararati2009 | 22 22UTC setembro 22UTC 2009

Relógio do Tempo

Relógio do Tempo

Meu olhar caminha pelo vilarejo de Lapinha da Serra;

por vivendas cujos telhados de uma, duas, três águas

volvem-se aos tempos remotos na faina de tropeiros

tangendo cavalgaduras pelas trilhas do ouro

apeando de léguas por descansar do fatídico

das jornadas!

Ao viés da cordilheira do Espinhaço

pesponteado por encostas

ao sopé do morro do Cruzeiro,

lá te encontrei, Lapinha!

Na quietude de um vale às margens de um lago.

Sua mineiridade logo se faz sentir

pelo modo hospitaleiro e cativante.

Nas casas do vilarejo há sempre

um dedo de prosa, café com queijo!

Há um calor humano,

um fogão à lenha aceso.

A vida na Lapinha viceja

um elixir que corre dos veios da serra,

expunge de nossa alma chagas do coração!

Há mãos que falam-me, que me acenam, que me acolhem,

num aperto de mão são as mesmas que ao chão

lançaram as sementes, cultivaram o amanhã

para que hoje frutificasse as novas gerações!

No gestual, no olhar ou falar,

não há marcadores de tempo precisos,

contudo, porque precisar subterfúgios,

somos inseridos no atemporal instante!

Em frisos de amanhecer

aurora em silhuetas insinuantes ao colo da serra

vai despindo-se.

Um tênue véu de neblina se dissipando

como um seio arfante o pico do Breu se vê!

Ouve-se um suave murmúrio.

Um aroma de alecrim se espalha pelo campo.

O vento estilhaça a luz do sol pelo espelho d’água;

mil olhos Azuis de Narciso se contemplam pelas vagas

no lago!

Uma joaninha vermelha se precipita pela haste de capim alçando vôo,

enquanto um beija-flor repousa sua imagem numa gota de orvalho;

um Lírio em botão é cálice da vida por transbordar;

uma rã em seu pijama de listas verdes e marrons

sabe que o dia será longo e se ajeita em sua rama de dormir!

Os últimos raios de sol que resvalaram pelos telhados

entornaram sombras que se desmancharam pouco a pouco,

tudo se tornará lúcido e sagaz ao meio dia!

Caminhando pelo entardecer surpreendeu-me

uma chuva esgueirando-se pelo longínquo

em roxa viuvez de serras num esvaecer de azuis.

O céu em chumbo parece verter por mágoa

toda lágrima de tristeza, eflúvios da terra.

Ouço que chega apressada;

quis correr em vão.

Fria, exata e obliquamente em mim se fez sentir.

Uma pequena névoa deitou colinas descendo pela encosta,

ganhou por vagas a superfície do lago.

Por alagados empossavam sapos,

Seus territórios de relvas.

O verde mais me pareceu ser a cor da alegria;

a chuva, a seiva, o sangue frio viçoso dos anfíbios;

capins e caules herbáceos de flores numa estação de Vivaldi.

Socozinho caminha pela vazante.

Irerê, biguás, uma garça solitária, vão pelas enseadas.

Martin pescador vai ao longe levando no bico

seu pescado.

A vida regurgita o alimento.

Libélulas, como pequenas fadas

parecem ter rompido suas crisálidas

e no frenesi do aqui e acolá

espalham no ar o ouro em pó

que por estigmas levarão ao gineceu,

o êxtase do insurgir-se no perpétuo.

Um dourado de horizonte enleado de tarde chuvosa

abstraiu por tonalidades primárias um arco-íris!

Por regalos ora bebo em goles, ora em gotas!

Ainda uma sede de muito viver

e experimentar da chuva;

que sou do caldo da vida uma molécula;

que ascendeu mais alto que as montanhas.

Que viajou pelos três oceanos

condensando e precipitando-me pelos campos!

Deitei-me em lençóis freáticos e sonhei outros oceanos.

Acordei de pantufas de musgo

e seguindo correntezas e meandros,

do todo que se transmuta no eterno retorno.

Memoráveis sejam os guizos do campo,

encantos de acasalamentos,

grilos cortejam suas fêmeas!

Um bando de maritacas em alarde

atravessam o crepúsculo vespertino.

Andorinhas do campo nidificam pela foz em algazarra.

Coruja buraqueira já desperta atenção

quem roeu o dia será da noite presa fácil;

tecelãs já tecem por entremeios tramas do noturno!

Entardecer na Lapinha é ser em perspectiva;

um ponto de fuga qualquer na paisagem!

Nuvens se aninham em escarlates.

Pelas trilhas da luz o ouro do leste dissipou-se

por parábolas do efêmero!

Lua cheia a gente colhe com a mão;

reunimos amigos, violão, canções!

Rede, varanda, solidão.

Ah! As estrelas, quando nos céus ausentes,

pirilampos na Lapinha são!

Quando as pálpebras pesarem,

E um suave bocejar se perceba,

Será o momento de repousar;

reclinar da cabeça no travesseiro

os sonhos de um dia que se viveu!

Aos que um dia terão que partir,

levem do tempo a leveza,

da Natureza em que tudo flui

à seu instante único e inequívoco

pelas Horas do Tempo…


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